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Colônias espirituais: Por que o "Além" não é Vazio ?

A natureza jamais se encontra em oposição a si mesma. Uma só é a divisa do brasão do universo: unidade-variedade. Remontando à escala dos mundos, encontra-se unidade de harmonia e de criação, ao mesmo tempo que uma variedade infinita no imenso jardim de estrelas.(A Gênese, Cap. VI, Item 11) Esta sentença de Allan Kardec não é apenas poética; é um postulado fundamental. Se a natureza é regida pela unidade de leis, mas expressa em variedade infinita, seria um contrassenso imaginar que o mundo espiritual — a morada normal e eterna dos Espíritos — fosse um deserto monótono e sem estruturas. Kardec, através das respostas dos Espíritos Superiores, estabelece as bases para o que obras posteriores, como as de André Luiz, chamariam de "colônias". Embora o mestre de Lyon não tenha feito um inventário imobiliário do plano invisível, ele deixou os alicerces bem cimentados.


A Erraticidade: Entre o "Nada" e o "Tudo"


Muitos críticos supõem que a erraticidade (o intervalo entre as reencarnações, conforme a questão 224 de O Livro dos Espíritos) seja uma espécie de limbo vago, onde Espíritos flutuam como poeira no sol. No entanto, a lógica kardequiana nos diz o contrário. Se o Espírito, ao desencarnar, conserva sua individualidade e seu perispírito — que é matéria, ainda que quintessenciada — ele necessita de um meio para agir.


Ao questionar sobre a utilidade das coisas na natureza na questão 236 item e, Kardec recebe uma resposta demolidora para a tese do "vazio": “Nada é inútil na Natureza; tudo tem um fim, uma destinação. Em lugar algum há o vazio; tudo é habitado, há vida em toda parte”. Se tudo é habitado, os Espíritos não estão "enfurnados" no nada; eles ocupam espaços que, embora invisíveis aos nossos sentidos limitados, são reais e organizados.



O negacionismo das Colônias Espirituais: Analisando a Pergunta 1012


Um dos maiores argumentos dos "negacionistas de colônias" é a pergunta 1012 de O Livro dos Espíritos. Nela, Kardec questiona se existem lugares circunscritos no Universo para penas e gozos. A resposta é: “(...) as penas e gozos são inerentes ao grau de perfeição dos Espíritos. Cada um tira de si mesmo o princípio de sua felicidade ou desgraça” Segue trecho completo:


1012. Haverá no Universo lugares circunscritos para as penas e gozos dos Espíritos, segundo seus merecimentos?


“Já respondemos a esta pergunta. As penas e os gozos são ineren-tes ao grau de perfeição dos Espíritos. Cada um tira de si mesmo o princípio de sua felicidade ou de sua desgraça. E como eles es-tão por toda parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado existe especialmente destinado a uma ou outra coisa. Quanto aos encar-nados, esses são mais ou menos felizes ou desgraçados, conforme é mais ou menos adiantado o mundo em que habitam.”


Contradição? Apenas para quem lê a letra sem o espírito. Na mesma resposta, os Espíritos esclarecem: “Entretanto, os Espíritos de uma mesma ordem se reúnem por simpatia” (vide Livro dos Espíritos pergunta 1012 item A). O que Kardec nega é o conceito de "Céu" ou "Inferno" como localizações geográficas fixas de castigo material ou contemplação ociosa. Ele não nega a existência de aglomerações. Uma colônia espiritual não é um lugar "fechado" ou uma barreira física absoluta; é um agrupamento por afinidade fluídica. É o "condomínio" da alma, onde Espíritos de interesses e méritos similares se reúnem, não por imposição de um muro, mas pela lei magnética da simpatia, segue referência que atesta os pontos que levantamos acima:

278. Os Espíritos das diferentes ordens se acham misturados uns com os outros?


“Sim e não. Quer dizer: eles se veem, mas se distinguem uns dos outros. Evitam-se ou se aproximam, conforme a simpatia ou a antipatia que reciprocamente uns inspiram aos outros, tal qual sucede entre vós. Constituem um mundo do qual o vosso é pálido re-flexo. Os da mesma categoria se reúnem por uma espécie de afini-dade e formam grupos ou famílias, unidos pelos laços da simpatia e pelos fins a que visam: os bons, pelo desejo de fazerem o bem; os maus, pelo de fazerem o mal, pela vergonha de suas faltas e pela necessidade de se acharem entre os que se lhes assemelham.”


Comentário de Kardec: Tal uma grande CIDADE onde os homens de todas as classes e de todas as condições se veem e encontram, sem se confundirem; onde as sociedades se formam pela analogia dos gostos; onde a virtude e o vício se acotove-lam, sem trocarem palavra.



"Bivaques" e Estações de Repouso: O Acampamento do Além


Kardec foi explícito na questão 234: existem mundos que servem de "estações ou pontos de repouso aos Espíritos errantes". A resposta define esses locais como "habitações temporárias, espécies de bivaques, de campos onde descansem de uma demasiado longa erraticidade".


Ora, se existem "campos de descanso" (bivaques), a lógica nos obriga a admitir uma estrutura organizacional. Espíritos não descansam no vácuo. Se há descanso e instrução, há ambientes preparados para tal. Chamar esses "bivaques" de colônias espirituais é apenas uma atualização terminológica para o que Kardec já descrevia como posições intermédias graduadas


A Lei de Justiça: O Aluno e o Professor


Sem essas regiões graduadas na erraticidade, a justiça divina seria um caos pedagógico. Na Terra, temos o bom senso de não colocar o aluno que mal decorou o alfabeto sentado na mesma banca de um doutor em Álgebra Linear. Kardec ensina que os Espíritos são classificados conforme sua pureza. Ver referência no Livro dos Espíritos para que não restem dúvidas aos "puristas":


94. De onde tira o Espírito o seu invólucro semimaterial?

“Do fluido universal de cada globo, razão por que não é idêntico em todos os mundos. Passando de um mundo a outro, o Espírito muda de envoltório, como mudais de roupa.”


a) Assim, quando os Espíritos que habitam mundos superiores vêm ao nosso meio, tomam um perispírito mais grosseiro?

“é necessário que se revistam da vossa matéria, já o dissemos.”


Seria lícito ou lógico que Espíritos endurecidos compartilhassem o mesmo ambiente vibratório que luminares do Amor? A própria natureza do fluido perispiritual impede isso: os fluidos pesados não suportam o brilho das regiões superiores. Portanto, a existência de "esferas" ou "regiões" não é uma invenção mística, mas uma imposição da física espiritual: cada um vai para onde o seu peso específico moral o permite flutuar. Segue uma referência a Revista Espírita de Março de 1868 onde se pode inferir essas observações atestadas pelo bom senso de Kardec (os grifos são nossos):


"Cada alma separada de seu corpo, livre das cadeias de matéria, aparece a si mesma tal qual é na realidade. Todas as ilusões, todas as seduções que a impedem de se reconhecer e de ver suas forças, suas fraquezas e seus defeitos desaparecerão. Experimentará uma tendência irresistível para se dirigir às almas que se lhe assemelham e afastar-se das que lhe são desiguais. Seu próprio peso interior, como obedecendo à lei da gravitação, a atrairá para abismos sem fundo (pelo menos é assim que lhe parecerá); ou, então, conforme o grau de sua pureza, ela se precipitará nos ares, como uma fagulha levada por sua leveza, e passará rapidamente pelas regiões luminosas, fluídicas e etéreas"


Criações Fluídicas: O "Minha Casa, Minha Vida" de Idéias


Kardec explica na Revista Espírita que o Espírito, pela ação do pensamento e da vontade, pode dar forma à matéria cósmica. Ele pode criar roupas, objetos e — por que não? — habitações. Para o Espírito, essas criações são tão reais quanto o tijolo é para o encarnado. E aqui segue o trecho da Revista Espírita de Agosto de 1859:


"(...) Sobre os elementos materiais disseminados por todos os pontos do espaço, na vossa atmosfera, têm os Espíritos um poder que estais longe de suspeitar. Podem, pois, concentrar à vontade esses elementos e dar-lhes a forma aparente que corresponda à dos objetos materiais.


6. Formulo novamente a questão, de modo categórico, a fim de evitar todo e qualquer equívoco: São alguma coisa as vestes de que os Espíritos se cobrem?


Resp. – Parece que a minha resposta precedente resolve a questão. Não sabes que o próprio perispírito é alguma coisa?"


Se o Espírito pode plasmar uma tabaqueira (como no famoso caso relatado por Kardec, sim da Revista Espírita citada acima caso os puristas queiram consultar), uma coletividade de Espíritos pode plasmar hospitais, escolas e cidades. Negar as colônias é negar o poder do pensamento sobre os fluidos, um dos pilares da fenomenologia espírita


Conclusão


Muitos se apegam à ideia de que se Kardec não descreveu o "mapa" de Nosso Lar, tal lugar não existe. Esquecem-se de que Kardec afirmou que o Espiritismo é uma doutrina progressiva. Ele jamais disse que o que escreveu era a fronteira final do conhecimento. E além disso, ja citamos os pontos básicos que demonstram que as colônias espirituais estão no cerne da obra Kardequiana.


Marcamos o passo em nossos vícios na erraticidade justamente porque retornamos aos nossos "agrupamentos de similares". Enquanto não internalizarmos o "Reino de Deus" em nossos corações — como ensinou o Cristo — continuaremos a respirar o ar pesado de nossas próprias criações inferiores. As colônias espirituais não contradizem Kardec; elas o confirmam, demonstrando que o Universo, em sua unidade de leis e variedade de formas, é um canteiro de obras incessante.


Se na Terra, esse "pálido reflexo" do mundo espiritual, buscamos organização, por que no mundo real — o dos Espíritos — seríamos brindados com o vazio? A razão enfrenta a verdade face a face em todas as épocas da humanidade, não nos parece lógico uma erraticidade vazia e destituída de proposito. Assim mais uma vez vemos que a Obra de Chico Xavier é indubitavelmente a complementação magistral de Kardec detalhando a belíssima frase do Cristo que nos disse que "Há muitas moradas na casa do Pai".

 
 
 

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